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"Quem se dedica ao sonho
Começa pela rua Asklipiou"

Charis KONTOU, Les Fleuves du centre

Ao passear pelas ruas de Exarchia1, bairro do centro histórico de Atenas, encontra-se aglomerações, organizadas ou espontâneas. O que aproxima essas pessoas?
Antes de tudo, o mito. Exarchia, cercado por universidades, sempre foi frequentado por artistas, intelectuais, grupos de esquerda e anarquistas. E ainda o é.
"Resistência criativa contra o declínio do mesmo", um slogan pintado em um muro esboça uma atmosfera singular e palpável. Grafites e cartazes políticos cobrem praticamente todos os muros e formam um diálogo informal frequentemente descrito como "a conversa dos cartazes". Espaços culturais, editoras, imigrantes, LGBTQ+, dependentes químicos… fazem parte disso e contribuem para essa atmosfera; "Exarchia aberto a todos" aparece em letras maiúsculas no muro de uma rua central.
Artesãos vendem diretamente objetos feitos à mão e colocam em ato este slogan: "As pequenas empresas enodam relações, não apenas transações". Bares e restaurantes alternativos tornam-se um steki para cada um. Steki, intraduzível em francês (e também em português), é um lugar de referência que se frequenta, porque nele se atam laços pessoais. Não é preciso dizer qual é a sua bebida preferida, pois o proprietário se lembra, sabe o seu nome, o trata de modo informal, pergunta sobre você. O mesmo acontece entre os clientes. Costuma-se ir sozinho, sabendo que provavelmente se encontrará amigos ou simplesmente haverá trocas com outros.
Os steki-a2 se formam em torno de uma característica, uma reivindicação ou uma ideologia. A lista permanece aberta, pois novas coletividades emergem constantemente sob novos significantes ou novos modos de gozo em comum. O funcionamento horizontal faz com que cada um possa participar das ações ou simplesmente aparecer. Encontram-se ainda coletivos centrados na gestão do espaço público : "O bairro pertence a seus habitantes", lê-se ali. As reuniões, muitas vezes com outros bairros de Atenas, são um espaço de trocas e de ações.
Em qualquer ponto, pode-se deparar com e participar de happenings artísticos, feiras de troca de roupas, projeções de filmes ao ar livre, discussões abertas sobre um livro ou improvisações musicais. Tudo acontece ao mesmo tempo. Uma cartografia exaustiva dos eventos é impossível, pois o acaso e o novo estão sempre presentes. Não existe um modo único de criar laço em Exarchia. Essa multiplicidade de formas de encontro, no cerne desse movimento sociopolítico e cultural, parece funcionar como suplência da relação sexual que não existe. As pessoas que ali se encontram falam de uma comunidade de Exarchia, uma criação original diante do exílio radical da não relação sexual.

La communauté d'Exarchia, patchwork de lien social © 2025 by Theo K. Mavraganis is licensed under CC BY-NC-ND 4.0

[1] Asklipiou é uma das ruas-fronteira de Exarchia. Talvez seja por acaso que psicanalistas e espaços psicanalíticos, orientados pela Escola, ali se tenham instalado, contribuindo assim para a sua atmosfera tão particular.

[2] « Steki-a » é o plural de « steki ».