Quem nunca cantarolou a canção My Heart Will Go On1, de Céline Dion? Muitos assistiram, em Titanic, de James Cameron (1997), a cena em que Rose lança ao mar o Coração do Oceano, um diamante raro. O que ela joga ao mar, ali onde perdeu seu amante, é a lembrança de um amor escondido que acaba de expor, fazendo dele, assim, um segredo do mar. Como diz Rose, "o coração de uma mulher é um oceano de segredos".
Amor e segredo frequentemente caminham juntos.
Leiamos Voltaire:
Cunegundes e Cândido encontraram-se atrás de um biombo; ela deixou seu lencinho cair, ele o recolheu; ela pegou inocentemente em sua mão; ele beijou inocentemente a mão da jovem, com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça muito particulares; suas bocas se encontraram, seus olhos se inflamaram, seus joelhos estremeceram, suas mãos se descontrolaram. O senhor barão de Thunder-ten-tronckh passando pelo biombo e vendo aquela causa e aquele efeito, expulsou Cândido do castelo com belos chutes no traseiro2.
Encontramos histórias de amor assim em nossa época, na qual, com alguns cliques, qualquer um pode encontrar um parceiro sexual ou acessar a pornografia que, segundo Jacques-Alain Miller, não faz senão mostrar melhor "[…] a ausência da relação sexual no real3"?
Para Freud, o amor se funda em divinos detalhes que fazem crer na relação4. E J.-A. Miller enuncia: "O amor é signo […] sempre correlato a um haver5 ".
As condições do amor são as causas secretas do desejo sexual. O desejo pelo outro encontra-se correlacionado à demanda de amor que visa uma pessoa singular, com exclusão de qualquer outra.
O objeto precioso do(a) amado(a), em sua alteridade, vem obturar o buraco da ausência da relação. Para Lacan, "o segredo mais chocante, a última mola do desejo, […] seu objetivo é a queda do Outro, A, em outro, a"6 . Ali onde o amor demanda, a pulsão exige satisfação e não faz relação7. Trata-se do que Lacan qualifica como o segredo da psicanálise, a saber, a inexistência da relação sexual.
Lembremo-nos de A Seita da Fênix, de Borges, em que a humanidade se comporta como uma seita obscena que, com o rito do coito, "faz do sexo um segredo" 8. Nesse texto, o segredo de cada um é o segredo de todos: é o segredo partilhado.
Estendamos essa questão do segredo ao amor, sob o ângulo da não-relação. O segredo do amor desvelado pela psicanálise é que ele é um fato de palavra que supre a relação que não há. Ainda assim, não é porque se confessa um segredo que ele deixa de sê-lo.
Ainda hoje, o amor dá abrigo à pulsão.
[1] Música de 1997 cujo autor é Will Jennings, composta por James Horner e interpretada por Céline Dion.
[2] Voltaire, Cândido, ou o Otimismo. (1959) Tradução de Regina Célia de Oliveira. São Paulo: Marin Claret, 2014. p. 20.
[3] Miller J.-A., O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet: O Corpo falante – sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, p.19-32.
[4] Miller J.-A., « A Orientação Lacaniana. Los divinos detalles ». Buenos Aires, Paidós, 2010. Capítulo VII p. 143-162.
[5] Miller J.-A., « Biologia lacaniana e acontecimento de corpo », Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n°41, 2004. p. 58. Edições Eolia. 2004.
[6] Lacan J., O Seminário, livro VIII, A Transferência, texto estabelecido por J.-A. Miller, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1991, p. 222. Lição de 01/03/1961.
[7] Cf. Seldes R., « Do mistério ao segredo do sexual », argumento do Congresso da AMP. Disponíel em: https://congresamp.com/pt/blog/do-misterio-ao-segredo-do-sexual/ Acesso em: 02 fev. 2026.
[8] Miller J.-A., « O coito enigmatizado: Uma leitura de "A seita da Fênix" de Borges. Curso de J.-A Miller de 24 de novembro de 1999, "Os usos do lapso", ensino pronunciado no quadro do Departamento de Psicanálise de Paris VIII. Traduzido e publicado aqui, com a amável autorização de Jacques-Alain Mille. Opção Lacaniana OnLine (série antiga), 2006. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/n3/pdf/ensaio/JAMCoito.pdf Acesso em: 02 fev. 2026.
Trechos de filmes propostos pelo Seminário Psicanálise e Cinema da ACF-Bélgica : Maud Ferauge, Claire Piette, Valérie Lorette, Yves Depelsenaire, Nicolas Moyson.
Fallen leaves – Aki Kaurismäki
Past lives – Céline Song
Four Weddings and a Funeral – Mike Newell
Annie Hall – Woody Allen – Alvie & Annie Discuss Sex & Frequency


