"Focus Israel Galván" no Théâtre de la Ville, em Paris, em 2025… Tudo começou ali.
Esse ciclo apresenta diversos espetáculos do renomado bailaor1 espanhol, constituindo um leque das diferentes facetas do dançarino e coreógrafo. Sua encenação decorre de uma busca através de um corpo, cuja língua é o flamenco.
Israel Galván é o flamenco e o ritmo que o faz vibrar. No argumento da brochura, o dançarino declara: "Meu pai é flamenco, minha mãe é cigana. Os dois formavam um casal de dançarinos do flamenco, eles apresentavam-se nos tablaos. Eu dancei com eles, ainda no ventre materno. O duo se tornou trio. […] Eu nasci dançando. Quando vim ao mundo, a dança já estava lá." Ele sempre fez Um com seus pais, Um com a companhia de balé flamenco que o iniciou durante a adolescência, Um com o que os júris dos concursos esperavam do vencedor…, até chegar à idade adulta. Uma ruptura radical ocorreu então em sua maneira de dançar. Ele se afastou do flamenco clássico para buscar um outro corpo-dançante, outro corpo-flamenco, o seu, e uma outra maneira de habitá-lo. Ele não cessa de renovar esse corpo, de buscá-lo, recriá-lo.
Seu corpo inteiro se torna percussão e compasso. O som está no primeiro plano, com todas as declinações possíveis do ritmo, utilizando diferentes materiais no chão que modificam, amplificam ou reduzem o som de seu sapateado, ora suave e abafado, ora ruidoso e intenso, poderoso e profundo. Seus pés são seu instrumento.
Do lado da imagem, ele inclui os atributos femininos do código do flamenco: leques, flores nos cabelos, mantillas (véu de renda) e peinetas2, assim como os códigos masculinos, com a panóplia do toureiro ou do soldado, como em Carmen, ou um traje todo preto em A idade de ouro.
Suas coreografias são uma encenação de sua infância de flamenco, como ele diz, e ele reveste, alternadamente, o feminino e o masculino. Assim, seus pais estão em cena nele, ele encarna o Um do trio, ao qual, no entanto, ele se opõe sistematicamente. Pois Israel Galván trata esse destino por meio de um esforço constante, de uma tentativa renovada a cada vez, de um subtrair-se ao Um imaginário do trio para encontrar seu corpo. É sempre uma manobra a ser recomendada. Ele, assim, subverte o flamenco com genialidade, e para nosso maior prazer.
[1] Glossário do vocabulário espanhol específico do flamenco, extraído da brochura do Théâtre de la Ville de Paris: Bailaor significa dançarino, termo reservado aos dançarinos de flamenco. Compas é a estrutura rítmica que guia o canto e a dança flamenca. Tablao é o piso de madeira que amplifica o som do zapateado do dançarino, considerado a alma do flamenco e o lugar dedicado ao canto e à dança flamenca. Zapatear/zapateo é a ação percussiva típica do flamenco, na qual o dançarino utiliza os saltos e as pontas dos seus sapatos (zapatos) para criar um ritmo, transformando seus pés em instrumento.
[2] Peineta é um pente curvo que as mulheres espanholas colocam em seu penteado para fixá-lo.


