Estou sentada no teatro. Uma luz baixa se acende no palco e dois homens brancos começam a discutir vivamente em uma língua que não tenho certeza de qual é. Há algo familiar na maneira como ela soa. Dentro de algum tempo, fica evidente que é uma língua indígena. Em um país onde estão vivas hoje mais de duzentas línguas originárias, não sei – e creio que a maioria do público à minha volta também não sabe – reconhecer nenhuma delas. Dentre tantas palavras desconhecidas, saltam duas em português: regra e arma. O diálogo dos atores se encerra, um homem canta ao fundo. E uma mulher aparece no vídeo projetado, olhando-nos. Quando ela surgir no palco, muitos minutos depois, estará interpretando uma personagem antiga, de uma história clássica, de outro continente – essa mulher, negra, é Antígona.
Trata-se do espetáculo Tragédia (2019), do grupo de teatro Quatroloscinco – Teatro do Comum, da cidade de Belo Horizonte. Nessa e em outras peças, o grupo se vale da fricção entre diferentes idiomas em suas dramaturgias. No meio desse espetáculo, que aborda temas como memória e violência, os atores, em volta de uma mesa de sinuca, repetem uma mesma cena três vezes: primeiro em português, depois em italiano, por último em guarani, aquela língua do início da peça: uma língua de um povo que sofreu e ainda sofre genocídio, que é também uma das línguas indígenas mais faladas na América do Sul. Trata-se de um diálogo em torno de uma disputa política e eleitoral que, a cada vez, termina com um tiro, recomeçando em outro idioma. Depois da terceira repetição, em guarani, a cena se encerra com os dois atores sobre a mesa de sinuca, fazendo o gesto de atirarem um no outro. Ouvimos dois tiros, a cena corta e então Antígona e sua história surgem.
Também em sua peça mais recente, Velocidade (2025), o grupo se vale de uma outra língua – desta vez, a língua de sinais. No meio da peça – e apenas nesse momento – um diálogo entre um filho que volta da guerra e um pai que permanece mudo à sua frente desdobra-se em um monólogo, todo em língua de sinais, no qual o filho fala para o pai da dificuldade de se transmitir uma experiência traumática, dos buracos da sua vivência na guerra e dos buracos na sua relação com esse pai. Silêncio e gesto radicalizados.
Assim, o grupo coloca em jogo a não relação em sua vertente estética e política. Ora, é preciso que consideremos o aforismo lacaniano segundo o qual não há relação sexual para além de sua referência direta às relações de parceria amorosa ou às relações entre homens e mulheres. O que está em jogo, afinal, é a presença inescapável, na língua, do gozo em suas diferentes modalidades – o que Lacan nos esclarece com conceitos como moterialité e lalangue – bem como os furos constitutivos de toda linguagem. Assim, a ideia de que não há relação sexual nos apresenta uma importante direção política, que se abre à questão do que fazer com aquilo que escapa à apreensão plena, à questão do que é possível criar diante do desencontro, da impossibilidade de se fazer Um, como saber-fazer com o Real.
Assim, a maneira como o grupo de teatro aborda questões críticas de nossa época, tratando-as na forma e não apenas no conteúdo do texto, nos ensina uma maneira de sustentar, em ato, o conflito, a tensão e o furo, indicando o impossível de traduzir de toda experiência estética, de toda linguagem. Um aceno para nossos trabalhos em torno desse tema, nas tantas línguas que, apesar dos limites de tradução, se encontram e nos reúnem no Congresso da Associação Mundial de Psicanálise.


