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Em um hospital de Buenos Aires, apresenta-se nas consultas com crianças e adolescentes um novo movimento de jovens artistas. A música urbana interrompe com força. Essas crianças e jovens cantam e dançam suas músicas, as escutam jogando Playstation. Mistura de diversos gêneros: trap, rap, reggaetón, R&B, esses artistas lotam estádios e se tornam referências no âmbito do streaming.
Um jovem conta que irá ver Nicki Nicole. Diante do meu desconhecimento, mostra um vídeo da moda no qual aparecem representantes do gênero urbano. Mulheres e homens com roupas esportivas, bonés, correntes de ouro e ornamentos em seus corpos, enquanto cantam: "Tira uma foto minha, que dê pra ver. No carrão, enquanto fazemos sacanagem. Gata, essa bunda dá tesão. Se disserem que sou bandido, não acredite." A mesma cantora que nesses dias tornou-se viral nas redes por estar namorando com um jogador de futebol internacional —- promessa de um futuro exitoso —- aparecendo no Instagram em lugares de luxo, viagens de helicóptero e jatinhos privados.
Em suas músicas, marcas como Gucci, Mercedes-Benz, Nike ganham protagonismo. "Fui pro shopping e gastei cinco mil. O que estou vestindo vale três mil […]. Tô a ponto de comprar a corrente pra mim. Faz tempo que estou vestindo Chanel. Viram tendências se marco seus nomes"1.
As referências às fotos e Instagram são frequentes. Imagens que afetam o corpo e produzem fascinação. Convidam a dançar, a se mexer.
Dinheiro, carros, joias que, mediante uma lógica fálica, tentam cobrir o mistério que une um homem e uma mulher, colocando o objeto como plus e fazendo existir esta relação. Objetos que apontam para a harmonia entre os sexos sem diferenciação. Ele canta: "Eu quero uma como A Joaqui. Que goste de fumar, de dar rolê, de armas e de subir na garupa". Ela: "Eu quero um que seja como você, dois é melhor. Fuma, fuma até ficar com tosse"2.
Esses movimentos culturais são modos atuais de fazer com o real impossível, o que não opera no simbólico. Com objetos que obturam, colorem o que não tem representação. Como uma foto, tentam capturar a relação sexual em uma imagem, que sempre deixará de fora o traumático, opaco ao sentido fálico e radicalmente Outro da sexualidade.

Cf.: https://www.youtube.com/watch?v=LWdAMW_4Yq0

[1] Emilia Mermes, "A cadeiaLa Chain", 2022.
[2] La Joaqui, "Dois beijinhos os Besitos", 2022.