O uso da tecnologia no âmbito das parcerias amorosas não nasceu com os aplicativos difundidos atualmente. Encontramos um antecedente em 1965, quando um grupo de universitários criou Operação Match, um programa de computador destinado à busca de parceiros amorosos.1 Cerca de sessenta anos depois, os aplicativos se tornaram um recurso habitual para propiciar encontros. E desencontros, claro.
Um fenômeno recente tem sido recorrer à Inteligência Artificial com o objetivo de encontrar as chaves para criar e manter um laço. Entre as principais perguntas feitas ao ChatGPT, em relação a essa temática, estão: como melhorar a comunicação? Como resolver conflitos? Como manejar o ciúme? Como saber se é o parceiro adequado? Como melhorar a sexualidade? – entre outras. O ChatGPT se tornou um recurso diante da falta de orientações para a vida amorosa e sexual.
Outra situação interessante… Vocês imaginam sustentar uma relação com a voz do partenaire, após sua morte? Parece digno de um episódio de Black Mirror, mas já é realidade. É o caso de Michael Bommer,2 que tem se empenhado na criação de uma versão digital de si mesmo, após ser diagnosticado com um câncer de cólon em estado terminal. Anett, sua esposa, lhe disse que uma das coisas de que sentiria falta, seria de falar com ele.
A criação de representações a partir da Inteligência Artificial também toca o passado. O artista chileno Felipe Rivas San Martín tem se interessado por aqueles casais, que pelo fato de estarem fora da norma imperante, não têm nenhum registro. Em sua obra "Um arquivo inexistente",3 há uma série de fotografias fictícias de casais homossexuais, pessoas queer ou não binárias, da classe trabalhadora na América Latina do início do século XX.
Concluo com algumas questões… se sempre haverá um mestre que prescreve o que deve ser a relação sexual,4 seria a ciência e seus produtos tecnológicos o mestre da nossa época? Quais particularidades e efeitos subjetivos isso implica nos assuntos de casal?

Felipe Rivas San Martín.
[1] Erill, B., (2024) Antes de Tinder estuvo Harvard: hace casi 60 años que la tecnología nos busca pareja. Disponível em: https://historia.nationalgeographic.com.es/a/antes-tinder-estuvo-harvard-hace-casi-60-anos-que-tecnologia-nos-busca-parejas_22388 Acesso em: 12 out. 2025.[2] NewsNation, (2024) New AI promises to take people to 'the next level' beyond death. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jFVL6bizBWc Acesso em: 12 out. 2025.
[3] Aqueles que desejarem saber mais sobre o artista podem visitar o site: http://www.feliperivas.com/un-archivo-inexistente.html Acesso em: 12 out. 2025.
[4] Miller, J.-A. O estatuto do trauma. Tambor – Fora de série. XII ENAPOL, Falar com a criança, Belo Horizonte, 5, 6 e 7 de setembro de 2025. Disponível em: https://enapol.com/xii/o-estatuto-do-trauma/ Acesso em: 12 out. 2025.


