Babasónicos irrompe na cena musical argentina nos anos 90 com um nome próprio, que combina o guru índio Sai Baba com o desenho animado Os Jetsons1: espírito kitsch e futuro pop televisivo num único vocábulo. Tem algo aí.
De todo modo, será apenas em 2001, com o álbum Jessico, que ficarão famosos, para terminar de se consagrar dois anos mais tarde com Infame. Uma banda que não abandona o rock post punk de seus inícios, mas que, com seu devir, vai rumando em direção da doçura e, sobretudo, do erotismo. Em 2018, chega assim – com quase 30 anos de presença babasónica na cena musical argentina – Discutible, um álbum que explora silêncios, arranjos sintéticos, vozes distorcidas e superpostas; um álbum cheio de referências, mais sensuais que sexuais.
"Ingrediente" é o segundo tema desse disco: dois corpos se atraem e parece ser somente pelo efeito da gravidade. Mas apenas alguns versos em seguida, a música nos revela que se tem que fazer alguma trapaça para que o encontro se produza.
Nunca tinha entendido a gravidade
Até que algo atraiu seu corpo para o meu
Não discuto que rolou algo especial
Mas sei bem que fazer trapaça ajuda
A lei e a trapaça.
A relação sexual que não pode se escrever – melhor dizendo: a relação sexual, que não pode se escrever – abre o campo da "possibilidade necessária" de alguma suplência. O que desafina entre os sexos tem, em certas ocasiões, uma suplência, sempre falida, mas talvez privilegiada: o amor.
Dárgelos canta só uma vez em toda a música os seguintes versos:
Sei que algumas peças nunca vão se encaixar
Te garanto que mal colocadas podem funcionar
Em "Ingrediente", não encaixam os elementos do vídeo original – barulho de autódromo, VHS, pizza Uggi's, filtros de celular –, a bateria inesperada, não encaixam as vozes superpostas. Contudo, algo (mal)funciona: Babasónicos canta o desarranjo, evitando cair na pretensão de complementaridade; melhor, é uma ode à divisão irremediável2. Talvez seja por isso que nunca se tenha visto tanta gente se beijar como num show dos Babasónicos.
[1] N.T. Os Jetsons foram traduzidos ao espanhol como "Los Supersónicos".
[2] Lacan, J., O Seminário, livro 21: "Les non dupes errent" (1973-1974) Lição de 15/01/1974 5. (Inédita).


